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A endometriose e os direitos da Mulher - Clínica Ayroza Ribeiro - Ginecologia Minimamente Invasiva
A endometriose e os direitos da Mulher

Por Profa. Dra. Helizabet Salomão


O dia 08 de março é uma efeméride política, de reconhecimento à mulher que luta por seus direitos. Nesse contexto, várias iniciativas internacionais que pleiteiam políticas públicas para tratar a mulher com endometriose lançaram há cerca de cinco anos, o movimento chamado “Março Amarelo”. Mulheres europeias, recentemente iniciaram uma campanha nas redes sociais com a hashtag “#1em10”, referindo-se à proporção de mulheres com a doença, que chega a ser de uma para  10 mulheres jovens, em idade produtiva e reprodutiva. Em pelo menos 60 países, no dia 24 de março, são realizadas caminhadas e atos públicos para chamar a atenção da sociedade.

Os direitos das mulheres em relação às conquistas de carreira e competitividade no trabalho têm sido alvo de lutas seculares e suas conquistas variam de patamar nas diversas  partes do mundo.

Uma das lutas mais difíceis dessas mulheres que têm buscado um posicionamento de carreira e conquistas no trabalho, entretanto, não está nas leis trabalhistas de qualquer país do mundo. O maior embate social das mulheres modernas, ao que parece, está em relação à endometriose. 

A doença foi identificada em 1869, mas só em 1921 passou a ser descrita pela comunidade médica. Suas causas, entretanto, ainda são objeto de estudos inconclusivos. Sabe-se apenas que o hormônio estrogênio, presente em alta escala nas mulheres jovens, seria o responsável pela progressão da doença.

Jovens a partir de 12 anos, na primeira menstruação, já podem manifestar a doença, que consiste basicamente, na presença de tecido endometrial fora do útero. A maioria das mulheres com a doença relata dores muito fortes no período menstrual, nas relações sexuais e até para evacuar.

O problema dessas mulheres estaria sob controle médico e poderia ser tratado se essas dores fossem melhor investigadas. Há estudos que apontam, entretanto, que há uma demora de pelo seis anos entre a manifestação dos sintomas e o diagnóstico, propriamente. As razões para este atraso, em geral, são ausência de queixas das pacientes a seus médicos, por considerarem as cólicas uma coisa ‘normal’ da menstruação, mas também há a falta de informação de muitos médicos, que diante de queixas de dores intensas, as sublimam, também por as considerarem uma característica “normal”.

Perda de competitividade

Agora atente para as perguntas:

1)   Você contrataria uma mulher que fica cinco dias ou mais em casa, por causa de cólicas menstruais?

2)    Entre ela e uma outra, que não tem nenhum sintoma como esses, qual você promoveria para coordenar um projeto importante?

3)   Entre ela e um homem, qual seria sua escolha imediata?

4)   Se você fosse um professor, daria uma segunda chance de uma prova final para sua aluna que falta periodicamente por causa das dores que sente no período menstrual?

5)   Você se casaria com uma mulher que não consegue sair da cama durante o período menstrual, por causa das dores que sente?

Nem precisamos de respostas para ver que a endometriose efetivamente tira a competitividade social e profissional de mulheres muito jovens, tornando-as desiguais em relação às que não têm a doença.

Eis o propósito da efeméride “Março Amarelo”, promovida para chamar a atenção da sociedade e das autoridades para esta doença, que no Brasil, é considerada “eletiva”, ou seja, deixa suas vítimas à espera de um atendimento digno que nem sempre vem, se contarmos com o Sistema Único de Saúde (SUS).

As mulheres europeias têm se organizado para colocar a endometriose nas pautas políticas, com o objetivo de chamar a atenção das autoridades. Há a necessidade de implementar políticas públicas que acolham as vítimas desta doença também no Brasil.

Há estudos recentes que quantificam os danos na qualidade de vida dessas mulheres, não só no âmbito pessoal e psicológico, mas financeiro, contemplando a diminuição da produtividade de mulheres que trabalham e estudam. Segundo esses levantamentos descritos na dissertação de mestrado  da dra. Raquel da Cunha Araújo, de 2013, da Santa Casa de São Paulo, cada paciente com endometriose teria um custo final de quase 10.000 euros anuais ( cerca de R$ 38.000,00), sendo que cerca de 60% desse valor são derivados de perda de produtividade no trabalho e o restante, com o tratamento, propriamente.

 O prejuízo financeiro, entretanto, torna-se irrelevante diante do sofrimento causado pela doença. Na maioria dos casos que conhecemos há impactos psicológicos extensos, bem como consequências físicas, como danos irreversíveis em órgãos internos, como intestinos, rins, bexiga e ovários, por exemplo.

O Brasil tem muitas prioridades a vencer no contexto da saúde pública, mas a endometriose não pode ficar de fora dessas metas, pois podemos estar perdendo valiosas estudantes, profissionais, mães e esposas para a endometriose. As mulheres merecem mais este respeito.

 

Sobre  a Profa. Dra. Helizabet Salomão

Coordena uma equipe multidisciplinar especializada na Clínica Ayroza Ribeiro, juntamente com Prof. Dr. Paulo Augusto Ayroza Galvão Ribeiro. É professora assistente da Faculdade de Ciências médicas da Santa Casa de São Paulo. Atualmente é chefe do setor de Endoscopia Ginecológica e Endometriose da Santa Casa de São Paulo e professora da Pós graduação nesta mesma instituição. Dedica-se à Ginecologia Minimamente Invasiva com interesse especial à Videolaparoscopia e Videohisteroscopia.

É coordenadora da Ginecologia do Núcleo Avançado de Endoscopia Ginecológica (NAVEG), que realiza cursos de treinamento em sutura laparoscópica, simpósio de Anatomia laparoscópica e Treinamento de Laparoscopia em cadáver. Participa de estudos que investigam a interferência de diversos fatores biomoleculares na gênese e na progressão da endometriose, os danos psicológicos e sexuais causados pela doença,  bem como os efeitos do tratamento da endometriose na qualidade de vida das mulheres portadoras da doença.

http://www.clinicaayrozaribeiro.com.br/


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